Blog da Professora Lúcia Leiro

11/28/2010

VIOLÊNCIA CONTRA A MULHER

Filed under: Uncategorized — ltleiro @ 14:50

 Escrevi há uns seis anos um artigo sobre a Casa Abrigo que, para além do foco central, é uma reflexão sobre as questões de gênero que violentam as mulheres.

A violência contra a mulher entristece.

O diálogo é uma experiência incomparável. Foi em um desses bate-papos sobre violência doméstica que acabei me debruçando na Casa Abrigo, um espaço em que as mulheres são conduzidas para serem protegidas dos companheiros que as violentam. São mulheres que vivem em situação de risco e que, uma vez circulando em sua comunidade, podem aparecer mortas. O terror nas ruas e nas casas.

Discutíamos, eu e minha irmã, entre um sacolejo e outro do ônibus (como tem buracos as ruas de Salvador), o sentido deste espaço que, no meu entender, funciona mais como um lugar de reclusão para mulheres. Lembrei-me dos internatos e conventos que recebiam jovens, em geral desafortunadas, para serem educadas e devolvidas à sociedade, esculpidas para serem verdadeiras donas de casa. Alguém aqui já assistiu ao filme “esposas em conflito”? Vale a pena.

A conversa surgiu quando perguntei à minha companheira de viagem (tinha que ser um assunto polêmico porque tinha que durar o trajeto Salvador-Lauro de Freitas), portanto tinha que ter assunto mesmo) se havia alguma atividade em que as mulheres abrigadas se sentissem melhores do que quando entraram. Pensei de que forma seria possível inseri-las em alguma atividade na sociedade, que as fizessem se sentir importantes e, assim, pudessem diminuir a sensação de impotência, humilhação, não-realização, fracasso que por vezes acometem àquelas que levam o peso de não conseguirem tornar a convivência com o companheiro e filhos possível. Na ausência de coisa melhor, acabam voltando para os agressores que, por incrível que pareça, acabam tendo sua imagem reorganizada, distorcida para melhor. Ao distorcer a visão que elas têm do agressor, a volta ao lar é inevitável e a esperança se renova, na busca vã de transformar aquele convívio em um digno imaginário construído em torno da “família feliz”. A casa, o lar, a família, os filhos… tudo tão aconchegante….

Esta visão de família nuclear é indispensável à ordem burguesa e é enganosa para a mulher (visão que agora também se volta para os homossexuais, última cartada da burguesia). A relação homem-mulher, projetada por esta ordem e massificada pelos seus veículos, através dos programas – como as telenovelas e filmes norte-americanos – imprime uma necessidade da mulher pertencer a alguém, a um homem, de ser amada, ainda que à base de imolações cotidianas. Existe, a meu ver, uma tendência nas mulheres jovens, de classe média ou média baixa, em transformar a sua existência na satisfação do outro e menos de si mesma . Apesar de elas dizerem o contrário, com certa irreverência e agressividade, ou, mesmo, certa tranqüilidade e satisfação, elas acabam sendo acalentadas pela mídia, embaladas na antiga cantilena de amar e serem amadas, acreditam na doação como via única para receberem amor, atenção, respeito. Mas, nem sempre a doação implica em um retorno qualitativo, mas em um retorno… muitas vezes espinhoso: Elas podem ser tudo na vida (as superpoderosas?!), mas o fim último é amar, pois, como diz a música popular, “toda mulher já nasce pra morrer de amor”, ainda que ela não saiba exatamente a noção de amor, se ele efetivamente existe, e, mais, se o homem percebe da mesma forma. A mulher vai experimentando a dissonância no dia-a-dia, que transforma o jogo amoroso em pequenas batalhas, com perdas e ganhos (para elas, mais perdas).

Fora este universo cor-de-rosa, de Barbies, flores e borboletas, do exercício da mística feminina, a jovem dos bairros populares caem no engodo secular. Sou aceita e querida porque sou feminina. E o que é ser feminina mesmo? Quais os elementos gestuais, visuais, que classificam a mulher e a tornam aceita em seu grupo? A escola não promete mais, não proporciona e nem estimula mais a jovem a uma carreira profissional e intelectual. Acabou a escola por revelar-se inviável para as camadas economicamente pobres da sociedade por ter perdido o seu sentido, por ter sido abandonada.

Qual o sentido de estudar, algumas meninas questionam. Que garantias efetivas posso ter ao concluir o nível médio, perguntam com certa angústia outras. Que tipo de mulher serei com a instrução que recebo, gritam algumas, mais agressivas por, possivelmente, já vislumbrarem uma possível resposta. A questão real é que muitas jovens, predominantemente negras, não conseguem terminar o curso sem engravidar. A mídia acentua a maternidade como fim último para a realização da mulher. A vida só tem sentido se a mulher for mãe. O filho muda a mulher. E nessa relação de dependência entre filho e mãe é que a jovem vê a possibilidade de ter alguém que as faça se sentir importantes e valorizadas.

Sou mãe, a minha vida ganhou um sentido, eu realizei algo, alguma coisa mudou, ganhou movimento.

As mulheres que estão na Casa Abrigo já foram jovens (ou são jovens), certamente, e acreditaram que a sua felicidade e realização seriam ao lado de um homem. No entanto, descobriram, na prática, que o discurso apenas tinha o objetivo de vender um produto: o amor? Não creio, mas o que subjaz a esse discurso, fazer com que as mulheres invistam boa parte do seu tempo em apoiar-se na idéia da realização pessoal através da dedicação a outro, na constituição da família, atende apenas a uma ideologia de classe.

A sociedade burguesa não oferece absolutamente nada para as jovens mulheres da periferia, que as façam se sentir confiantes em si mesmas. Ao contrário, reforçam o ideário de feminilidade, de sedutoras, peças fundamentais na engrenagem do sistema patriarcal, dedicando-se ao outro, sempre o outro… e o outro faz de conta que retribui, mas aumenta apenas o seu poder masculino. O que acontece quando o sonho de ser amada e desejada cai por terra? Ou, ainda, quando percebem que o companheiro não é bem aquilo que elas queriam para conviver? Surge a sensação de desapontamento, mas, também, a vontade de se afastarem. Este afastamento dificilmente é aceito, poderia até mesmo dizer que o homem não aceita a negação de uma mulher, pois o fracasso passa a ser entendido como sendo dele, mas para não reconhecer isso perante a sociedade, alimentam uma dupla idéia: ou a mulher tem outro – o que seria uma traição – ou a mulher é “problemática”, caso não haja outro no caminho. De qualquer sorte, o discurso busca isentar o homem de qualquer sinal de incompetência, mas sabemos que o que eles sentem, em ambos os casos, é uma sensação de fracasso, como homem. Esse pensamento não “brota” naturalmente, mas faz parte de uma ideologia de gênero sustentada pela sociedade patriarcal.

Diante da resistência da perda ou da possibilidade de ser preterido por outro macho, restam as perseguições e, convenhamos, a sociedade não conseguiu neutralizar a agressividade masculina em relação a mulher e por isso fica impotente. Como não consegue punir o homem, acaba punindo a mulher por meio do exílio, arrancado-a do convívio de amigos, pais e vizinhos. O homem fica livre (como sempre) para provavelmente destruir outras vidas, enquanto que a mulher é retirada para um lugar supostamente seguro, anônimo, como se ela fosse a responsável pelos desatinos do macho. Para ela, o constrangimento de nenhuma visita, a solidão e a reclusão. Para ele, as ruas, o bar, a praia, a diversão e a possibilidade de vir a fazer a mesma coisa com outras.

Pergunto: até quando contornaremos situações e efetivamente não desenvolveremos uma campanha voltada para o homem, que coíba a agressividade dele? Poderíamos enviá-los a algum lugar de recuperação e convencê-los que ali eles poderiam se tornar homens de verdade e não marionetes de um sistema patriarcal. Seriam acompanhados por pessoas treinadas e capacitadas a oferecem cursos, palestras e atividades que desenvolvessem a sensibilidade e que os fizessem ver o outro como semelhante e complementar; que existem outras formas (Quais? Elas realmente existem? E os de classe média porque também são violentos?) de eles exercerem poder, que não espancando mulheres. Talvez devêssemos colocá-los em um espaço no qual estivessem seguros dos contatos de outros homens, a não ser os internos. Vamos protegê-los da malignidade deste mundo, conduzindo-os a um lugar afável, com flores, borboletas, quem sabe eles amolecem um pouco o duro coração esculpido pela ordem social. Nada de bebidas, futebol, cigarros, drogas, dominó ou outra atividade competitiva. Competição?! Nem pensar. Jogos, só os que pudessem exercitar a complementaridade.

Vamos abrigá-los!!!

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