Blog da Professora Lúcia Leiro

09/15/2010

Aprendendo com os “realities”

Filed under: Uncategorized — ltleiro @ 15:28

Eu não sou muito fã de realities, mas, como já havia postado antes aqui, alguns podem render algumas boas aprendizagens e discussões.

Um dos meus preferidos é o America’s Next Top Models (ANTM), comandado pela ex-modelo Tyra Banks (tyra em língua suaíli significa “narciso”), uma das raras mulheres negras a desfilar nas passarelas da moda com visibilidade internacional. Com a sua entrada na televisão, a ex-modelo preferiu abandonar as passarelas em 2005 e se dedicar aos programas televisivos. Um destes é o ANTM.

Em um dos episódios eliminatórios, porque é um programa que visa selecionar uma candidata para ser a ANTM do ano, Tyra mostrou que muitas adolescente estão sem pespectivas e veem a maternidade como única saída. Na sessão de fotos das candidatas, elas tinham que incorporar uma personagem adolescente em um cenário de jogos infantis, esbanjando alegria e vitalidade, e ao fundo, no segundo plano, as outras modelos faziam o papel de adolescentes grávidas, tristes e entediadas, vendo as outras brincarem. Este ensaio fotográfico me chamou a atenção pela provocação temática, a gravidez na adolescência, e pelo fato de, paradoxalmente, ser a indústria da moda a que sustenta o imaginário de mulher glamourousa, objeto de desejo dos homens, muito embora,  de uma certa forma, elas estejam fora de uma humanidade que as iguala às outras mulheres cotidianas. O paradoxo também é que a moda  é uma carreira profissional como outra qualquer vista, como não poderia deixar de ser, um meio das mulheres (e homens) se dedicarem, estudarem e  se profissionalizarem. Como em qualquer profissão, sabemos que as conquistas acontecem no eixo das relações, no processo que faz com que as pessoas, neste caso do programa, as jovens cheguem a ocupar um lugar de destaque, de reconhecimento profissional. No caso da moda, depois de anos de esforço, o reconhecimento é estar entre as mais contratadas.  O processo desafiador é mostrado no programa.

Um outro aspecto que me chama a atenção é a proposta de transformar mulheres comuns em modelos. A metáfora da construção, da performance está muito presente neste programa, pois as mulheres são formadas para serem profissionais de nível internacional e, para isso, precisam investir, focar, cuidarem de si, dando a ideia de que as pessoas não nascem ou recebem dons, mas elas são treinadas para serem o que querem ser e para isso precisam gostar ou pelo menos passar a ideia de que gostam da área que pretendem atuar e, terem, claro, pessoas que as orientem.

O programa deixa bem claro que se trata de preparar jovens comuns, nem sempre belas, em modelos, em um mundo que aí está. Desse modo, o aspecto competitivo é evidente. Existe apenas um lugar e mais de uma pessoa deseja almejá-lo, inevitavelmente haverá uma disputa para ver quem o ocupará. Este lugar fica vazio a cada ano e milhares de jovens se candidatam, mas apenas entre 13 e 14 são selecionadas.

Os profissionais orientam as modelos dizendo que não basta dizer que gosta da profissão, tem que convencer o outro disto. Existem disputas internas e vemos as estratégias usadas pelas candidatas para desestabilizar a concorrente: a provocação por meio da desqualificação mútua e com isso a construção da baixa auto-estima na outra; a formação de grupos internos, blocos que isolam uma ou outra candidata e as limitações de cada candidata como a dificuldade em superar obstáculos,  o apego, a falta de compromisso (atrasos), a dificuldade de, com agilidade, detectar problemas e propor soluções,  a insegurança, o excesso de confiança, a inadequação, enfim, são vários os aspectos evidenciados pelo programa e que impedem as candidatas de conquistar o espaço almejado.

O único problema é que a versão que hoje é exibida na televisão é o ciclo 12, que foi ao ar em 04 de março de 2009. No site oficial do programa, já aconteceram os ciclos 13 e 14.

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