Blog da Professora Lúcia Leiro

11/01/2009

Mulheres sem nenhuma importância

Filed under: Uncategorized — ltleiro @ 16:20

O título nos remete a um conto de Sonia Coutinho e uma narrativa enxertada no livro Ilhas Cercadas, de Maria do Carmo Pinheiro Torres. Essas duas escrioras, a primeira baiana e a segunda portuguesa, pertencentes a uma mesma geração, talvez nem se conheçam, mas trouxeram para seus escritos a discussão sobre mulheres que não são vistas, que são destratadas, invisíveis. Essa questão, largamente discutida entre as escritoras desde o século XVIII, parece não ter fim. Está tão arraigada que a heroína do Quarteto Fantástico tem como poder ficar invisível e, muito recentemente, o cinema brasileiro tematizou a invisibilidade da mulher, vivida por Luana Piovani.

Nos últimos meses, vimos o impacto midiático de uma professora que subiu no palco para performatizar uma dança, exibindo as nádegas para o público enquanto o cantor levantava o seu vestido mostrando um modelo de calcinha homônimo ao refrão da música “Toda Enfiada”. Mais recentemente, uma aluna de graduação, ao usar um vestido curto na faculdade, foi desqualificada ao som uníssono de seus colegas que a chamavam de “puta”. A aluna conseguiu sair da faculdade escoltada pela polícia.

Chamo a atenção para os desdobramentos disso. Em ambas as situações, as mulheres foram parar em programas de TV e tendo seus momentos de visibilidade.  A professora é presença constante nos shows de pagode na Bahia e a aluna tem aparecido na televisão em programas sensacionalistas.

Parece-me que a discussão sobre a visibilidade da mulher é uma questão ainda a ser muito debatida dentro do movimento feminista, pois o que está em jogo é o que na mulher é valorizado neste modelo de sociedade e que aparece  nesses exemplos aqui trazidos. Não me importa aqui a moral, mas o motivo pelo qual essas mulheres lançam mão do artifício da erotização do corpo para obter seus propósitos. O que elas estão dizendo é muito mais do que vemos. Elas estão claramente, mas, também, inconscientemente, mostrando o que elas aprenderam da cultura: uma mulher só tem como valor o seu corpo fetichizado, erotizado, significado para o consumo e espetáculo dos homens.

2 Comentários »

  1. Isso é bem triste!

    Comentário por Deise — 11/01/2009 @ 18:58 | Responder

    • De fato, Deise. O que podemos fazer?

      Comentário por ltleiro — 11/01/2009 @ 20:01 | Responder


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