Blog da Professora Lúcia Leiro

08/31/2009

Barbarelas e Nikitas dos Trópicos

Filed under: Uncategorized — ltleiro @ 11:33

“Não me elegeram a garota do fantástico, não me subornaram, será que é meu fim” (Cazuza)

Demorei a postar um comentário sobre a professora que foi demitida porque subiu ao palco para executar uma coreografia com base em uma música de pagode.

Sabemos que as coreografias das músicas de pagode ressaltam movimentos do corpo da mulher (não excluindo o masculino, mas a significação é outra, até porque atravessado pela cultura de gênero) sustentados pela forte carga apelativa em torno da sua erotização. O caso em questão tem sido alardeado pela mídia e me interesso em expor aqui alguns pontos que considero oportunos salientar.

A repercussão do fato, através de um vídeo amplamente divulgado no youtube, chama a atenção para a profissão (professora) e o nível que ensina (infantil), muito embora outras meninas estivessem no palco realizando a coreografia. Isso significa que a identificação da profissão dessa mulher foi determinante, já que as outras, que também estavam no palco, passaram despercebidas, ou seja, o problema está muito mais na afronta que a professora fez a um código burguês, portanto, transgressora nesse aspecto, do que na dança em si. Isso porque não se está interessado nas mulheres que erotizam seus corpos, mas em uma mulher específica, vista como representante da classe burguesa, ou ainda que a burguesia elegeu para representá-la. Esse “choque” fica visível quando o imaginário entra em cena. Em um dos vídeos divulgados o título ressalta sentidos que demonstram bem a zona de conflito das culturas: “professora putona”, “professora dança todo enfiado”, etc. Acontece que na sociedade pesou a moral burguesa. Nenhum movimento se pronunciou a respeito, saiu em defesa, ao contrário, silenciaram-se. Somos todos burgueses?

As meninas dançam dessa forma em outros espaços, mas como não são exibidos e não geram maiores repercussões também não geram reações. Independente de ser professora, o que considero importante discutir é a espetacularização do corpo da mulher reduzido a objeto de referência masculina. O fato de não ser professora não minimiza o problema. O pagode baiano tem produzido meninas ávidas por se encaixar em um produto engendrado pela indústria cultural, meninas prontas para o consumo. Mas que consumo? Interesso-me em analisar o modelo de sociedade que sustenta essas práticas sociais, pois desde cedo as meninas são incentivadas a desfilarem seus corpos pelos bairros e shoppings, congelando-se em uma imagem que reproduz os valores de uma sociedade que as ignora em sua humanidade. Meninas pobres ou de origem pobre, na sua maioria negras, são estimuladas a exibirem seus corpos e formatá-los conforme os interesses econômicos de uma classe dominante. Em nossa cidade, a exploração do corpo feminino é visto como gerador de uma cultura de gênero assimétrica por onde perpassam as dimensões de classe e raça, embora considere as práticas sociais uma tessitura complexa, pois nem sempre quem explora é tão Outro assim, às vezes, muitas vezes, é a nossa própria imagem especular.

O que eu gostaria de chamar a atenção é para uma questão muito mais ampla que é a mulher vista como um subproduto de uma indústria de consumo: as barbarelas e nikitas dos trópicos.

4 Comentários »

  1. Muito legal e interessante professora!
    Parabéns! Continua escrevendo!!!!!!

    Beijos e abraços

    Miguel Novais

    Comentário por Miguel Novais — 09/09/2009 @ 20:40 | Responder

    • Obrigada, Miguel

      Hoje estive no Passeio Público em uma manifestação a favor da reviatalização responsável do espaço e escutei um dos participantes dizer que no bairro onde ele mora a cena que vimos no YouTube é corrente. Na verdade, há muito tempo que as jovens dos nossos bairros estão sendo estimuladas a serem objetos sexuais, porém não existe interesse em discutir isso, só quando chega a atingir a classe média (professor é classe média).

      Comentário por ltleiro — 09/09/2009 @ 22:28 | Responder

  2. infelizmente a banalização do corpo e do sexo tem transformado o comportamento feminino, levando a vulgaridade e desvalorização. A professora só foi uma vítma do sistema. Talvez a academia como orgão formador possa contribuir com trabalhos sociais na valorização do ser feminino excluindo o objeto sexual.

    Comentário por Ieda — 09/25/2009 @ 20:40 | Responder

    • Existem vários projetos nas universidades discutindo a condição da mulher, mas poucos tocam na “ferida”, pois somente com um estudo das linguagens, sobretudo midiáticas, com toda a sua carga simbólica e ideológica, poderemos, a meu ver, operar com elementos que propiciem uma mudança mais radical. Mas como a classe dominante, donos das mídias, não têm interesse em fazer com que as pesquisas mostrem as suas falácias e sendo este grupo responsável pelas regulações também da máquina estatal, os projetos desse porte são vistos como sem importância.
      Mas estamos usando, com a ajuda da tecnologia que essa classe inventa, os espaços virtuais para podemos debater a suas próprias contradições.

      Comentário por ltleiro — 09/28/2009 @ 16:47 | Responder


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