Blog da Professora Lúcia Leiro

08/19/2009

Carta aberta à comunidade baiana

Filed under: Uncategorized — ltleiro @ 12:11

II CONGRESSO DA ADUNEB

Texto a ser lido no II Congresso da Aduneb (Associação dos Docentes da UNEB), na plenária de votação, em razão da NÃO aprovação, nos GTs, da DIRETORIA DE FORMAÇÃO POLÍTICA FEMINISTA.

 UM PATRIARCADO SOCIALISTA?

 Por Lúcia Leiro

Delegada do Campus XIX – Camaçari

“Que nível de consciência possui uma mulher que trabalha frente o fogão, que não tem direitos na sociedade, no Estado ou na família? Ela não tem idéias próprias! Tudo faz segundo ordena seu pai ou marido…” Alexandra Kolontai

Parodiando Kolontai, faço a seguinte reflexão: que nível de consciência possui uma mulher que, mesmo tendo acesso a direitos na sociedade, no Estado e em qualquer instância de organização social – além de ter a consciência da importância desses espaços – não tem idéias próprias, pois tudo o que faz depende do que lhe ordena ou “sugere” seu companheiro de luta ou/e de casa?

O fato de nos equipararmos aos homens quantitativamente no II Congresso da Aduneb não provocou qualquer fissura na base patriarcal que parece hoje sustentar o sindicato, dada a clara e ostensiva resistência à aprovação da tese que cria A DIRETORIA DE FORMAÇÃO POLÍTICA FEMINISTA, mesmo que, paradoxalmente, os discursos de seus representantes sejam simpáticos à idéia dos movimentos dos grupos minorizados, mas entre o discurso e a prática há um longo caminho. Tal aprovação representa dentro da história do sindicato um avanço significativo para as mulheres, maioria na Universidade e quase a metade formada neste Congresso. Mas o fato da maioria ser formada por mulheres, não significa dizer que todas tenham uma visão política de gênero, isto é, uma visão política da condição da mulher dentro de uma estrutura social excludente do ponto de vista de gênero, pior, não conseguem identificar dentro das práticas sócio-culturais os estratagemas que nos levam a nossa própria exclusão, pior, caras colegas, com o nosso aval. Sobre isso Noam Chomsky foi muito lúcido ao tratar de um modelo de sociedade cujos membros consentem sem consentir. Segundo ele, “quanto mais “livre e popular” é um governo (e nós imaginamos aqui o sindicato), mais necessário se torna o controle da opinião para garantir a submissão aos governantes (nesse contexto os sindicalizados)”, isso equivale a dizer que os espaços mais democráticos são os que mais controlam e regulam a informação e tendem a direcionar as decisões.  

Ouvi durante as discussões que todos os –ismos não são bem vistos, contudo a história se movimentou e se movimenta tendo em vista os –ismos que nada mais são do que movimentos. As mudanças históricas foram construídas pelos –ismos, e não estou aqui valorando, apenas dizendo que esse –ismo significa movimento e faz parte, inclusive, do processo de transformação social. Sem essa transformação apenas existem o conservadorismo (movimento reacionário), a alienação e a estagnação das idéias, isto é retrocesso histórico. Ouvi também um pronunciamento que separava o ativismo político social feminista de um ativismo político acadêmico-feminista. Eu não consigo enxergar dentro de um processo de construção do conhecimento a separação entre a prática e a teoria. A meu ver, o pessoal ainda é o político.  Como posso descorporificar o sujeito que no meu entendimento é histórico e, portanto, interpelado pela ideologia? Como posso me abster como feminista de uma decisão que implica uma demarcação política e histórica dentro do sindicato na construção de uma diretoria de formação política feminista? Como posso conceber e aceitar como feminista as migalhas de um GT? Herdamos uma história de lutas de mulheres secular para acabarmos cooptadas? É esse o projeto socialista e acadêmico que temos para oferecer às mulheres em contraponto ao modelo burguês?

Alexandra Kolontai, que cito mais uma vez, estava muito correta quando disse que ao se tratar de questões sobre a mulher, o homem operário pensava como o burguês, isto é, a mulher dentro dos partidos, dos sindicatos, e de qualquer outra organização social, teria de lutar contra outras exclusões igualmente históricas, e os homens que hoje ocupam assentos importantes dentro do movimento sindical cometem o mesmo equívoco histórico denunciado no início do século passado, anos 20 aproximadamente, pela feminista russa: a existência de um patriarcado dentro de um movimento socialista, isto é, a opressão, a exclusão da mulher dentro de um discurso emancipatório do ponto de vista de classe. Assim, dentro da luta de classes não havia lugar para a mulher e esta não se percebe como apenas uma peça da engrenagem dentro do movimento de classe.

Mulheres lúcidas como Kolontai, Rosa de Luxemburgo, Clara Zetkin, inclusive antes de Beauvoir, conseguiram há séculos encampar uma luta que pelo visto parece não ter fim, pois quando ocupamos os espaços de poder somos imediatamente induzidas a consentir com o que já está estabelecido – a exclusão das mulheres dos espaços de poder – por conta da ideologia que inverte e desloca sentidos. Recentemente, tenho percebido que todas as vezes que uma proposta feminista aparece, ela é imediatamente colocada em questão em prol de uma suposta inclusão de outras categorias que na verdade esconde o incômodo dos homens (se vocês não fossem tão machistas e misóginos eu não precisaria estar aqui falando isso) de não poderem disputar este espaço de poder reservado às mulheres; esconde que as cotas ainda são um problema para as mulheres; esconde a voz dos homens que através das mulheres evocam ardilosas manobras que as submetem a um perpétuo estado de subserviência e de papel coadjuvante no processo de construção de uma nova sociedade e universidade. Caros colegas e Caras colegas, quando destacamos e valorizamos a DIRETORIA DE FORMAÇÃO POLÍTICA FEMINISTA, estamos dizendo que nos interessa que as mulheres estejam no poder e quando retiramos essa proposta significa dizer que as queremos na disputa, mas não necessariamente no poder. Essa diretoria e delegação que deveria assegurar a famigerada cota destinada às mulheres, que há muito custo tentam ocupar espaços de poder, está prestes a aprovar nesta plenária, e assumir isso publicamente, que os homens (e as mulheres homificadas) mais uma vez conseguem minar o avanço político das mulheres politizadas e desarmar as estratégias de ocupar lugares de poder, pior com o consentimento de algumas mulheres. Por mais que eu tenha dito, e eu sou uma teórica e militante feminista, que os estudos feministas contemporâneos não excluem as outras dimensões sociais, ainda assim, a tese foi completamente descartada e sumariamente violentada em sua proposta inicial.

Estamos prestes a aprovar caros colegas e caras colegas o maior retrocesso histórico para as mulheres e pensemos nos desdobramentos políticos dessa decisão. Estamos prestes a aprovar, e assumir isso publicamente, em Congresso do nosso sindicato a maior violência já feita contra as mulheres. Teremos como sustentar isso internamente e externamente? Peço mais uma vez aos colegas, companheiros e companheiras, que revejam as suas posições e não escrevam nas páginas da história desse sindicato e de suas vidas tamanho gesto de violência contra as mulheres e a um legado de luta de outras tantas mulheres que tiveram de morrer para que estivéssemos aqui com o microfone na mão dizendo o que pensa.

 “ O sistema neoliberal tem um subproduto importante e necessário – uma cidadania despolitizada, marcada pela apatia e pelo cinismo.” Noam Chomsky

Quando a gente comete um erro sobre alguma decisão em nossa vida isto longe de ser um gesto vergonhoso é um privilégio, pois fizemos história e aprendemos muito a construir e entender o movimento da vida com essa tomada de consciência, mas quando somos tomadas ou tomados por esta consciência e cometemos o mesmo equívoco isso pode se tornar um problema maior e de alcance mais amplo e nefasto. Dialeticamente entendo que um equívoco pode ter uma feição revolucionária, positiva, se por exame de consciência recomeçamos por este mesmo ponto, mas com uma postura diferente.

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